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A primeira mulher a ganhar a Batalha da Torre: conheça Adri


Na história da Batalha da Torre, assim como na história do rap, os degraus sempre pareceram mais altos para as mulheres. Entre rimas, suor e um sistema que muitas vezes tenta silenciar corpos femininos, uma voz se levantou para mudar o curso dessa narrativa. Nesta entrevista exclusiva, conversamos com a primeira mulher a conquistar a Torre, uma artista que se define como "um sonho em movimento". Muito além do troféu, ela nos conta como foi enfrentar o peso das expectativas, a adrenalina de um round decisivo contra o favoritismo e o impacto emocional de saber que, a partir de agora, nenhuma menina que subir naquele palco ouvirá que "não é lugar de mulher". Conheça a história de quem não aceitou ser adereço, ela mesmo: Adri!

Quem é você para você mesma?

Um mistério, uma pergunta, um sonho, uma decisão. Meio subjetivo, mas já me questionei várias vezes isso, entretanto, sinto que eu sou um sonho em movimento. Me sinto parte de um futuro ancestral. Hoje, pra mim, sou uma jovem determinada, cansada, que sente medo das coisas da vida mas que acredita no próprio direito de experimentar o mundo e ter liberdade pra isso. No geral, pra mim, sou um sonho que se tornou realidade e que deseja ser compartilhado ainda mais. E também, uma grande referência, uma força da natureza, um vendaval. Sou história.


Qual foi o round mais difícil pra você? E Por quê?

Definitivamente o round contra o Youngui. Foi o mais difícil porque foi o round em que eu precisava me permitir ser eu mesma, e às vezes é difícil não ceder às expectativas padrões do público de batalha. Eu não sou uma MC de repetição, sou mais que isso e nem sempre somos acolhidos nesse lugar. Mas naquela noite, eu fui e isso me surpreendeu muito. O desafio não foi rimar, foi rimar me arriscando soltar o que sou. E foi daora pra caralho.


O que passou pela sua cabeça quando anunciou que você tinha vencido?

Um milhão de coisas. Meio mundo de pensamentos. Os intrusivos, os encorajadores, os frenéticos… todos. Fiquei muito feliz, extremamente orgulhosa. Extremamente emocionada por provar pra mim mesma que eu POSSO. Dentro de todo turbilhão que as emoções causam, da adrenalina, da euforia, o mais significativo foi reafirmar pra mim o quanto sou merecedora daquele e de tantos outros espaços. Que tá tudo bem eu reivindicar o meu valor porque eu mereço isso. Foi especial. E estar ao lado de referências como Japa e WL foi uma honra.


Quando você percebeu o peso histórico disso?

Quando me lembrei que nenhuma mulher nunca tinha ganhado a batalha da torre até então. Que eu entrei no lugar de um cara que violentou uma mulher e saí campeã. Contrariando todos que achavam que eu não merecia estar ali e que eu não era capaz de vencer. Quando ouvi a galera gritar meu nome, me pedir para tirar fotos e reforçar o quanto foi importante para eles me verem naquele palco. No outro dia eu acordei chorando copiosamente. Cê é doido, eu nunca me senti tão querida. Ouvi coisas das quais nunca vou me esquecer e todas elas se resumiam ao papel indispensável da representação e da representatividade.


O que muda daqui pra frente?

Muda os olhares públicos. Me coloca em evidência, de certa forma. E muda principalmente a maneira como eu me vejo. Já não enxergo mais alguns limites que criei, já não ouço tanto as inseguranças, já não descredibilizo a minha identidade como freestyleira. Ganhar é bom porque não é só vencer, é uma confirmação do caminho que estamos seguindo. Daqui pra frente eu entendi que o caminho é me validar. 


O que você vê hoje na cena de batalha que te anima?

Duda Santhana. Dez anos, muita rima, muita confiança. Muito sonho. Isso me encoraja de forma grandiosa. Assistir Japa buscar o título de campeão nacional também foi revigorante. Obstinação, muita coragem, muita rima. Muito sonho também. 


E o que ainda precisa mudar?

Eu poderia listar várias coisas, das mais minuciosas às mais latentes, mas acho que tudo começa na falta de respeito. Pra mim sempre vai ficar faltando respeito. O mano (sistema também conta como mano) não vai respeitar o que eu rimo, não vai respeitar meu estilo, não vai respeitar minha linguagem, não vai respeitar meu corpo, não vai respeitar meus relacionamentos, o mano não vai respeitar o não que eu dei… E mano, não é que eu precise de você pra fazer rap, mas atrapalhar meu caminho você não vai. A galera precisa parar de achar que ser minoria nos torna adereços, nos tira opiniões e direitos. Eu não sou de enfeite. Isso precisa mudar. 


Se você pudesse escolher a frase que vai ficar marcada dessa vitória, qual seria?

É necessário sempre acreditar que o sonho é possível.





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Entrevista por Lucas Rodrigues.