Há palavras que não chegam sozinhas. Quando os Estados Unidos sugerem que facções brasileiras sejam classificadas como organizações terroristas, o debate não se limita à segurança pública.
A palavra “terrorismo” teoricamente, serve para designar ações intencionalmente praticadas com objetivo de causa terror na sociedade. Mas, em geral ela carrega um histórico internacional de sentido e consequências que ultrapassam a semântica tradicional: ela é aplicada em grupos dissidentes, oposição àqueles que possuem o controle da narrativa e abre caminhos jurídicos, financeiros e diplomáticos que alteram o tipo de relação entre países.
O governo brasileiro recusou a proposta americana lembrando que, pela legislação nacional, terrorismo exige motivação política, ideológica, religiosa ou racial, casos pouco recorrentes nas organizações do crime organizado brasileiro.
O argumento utilizado pelo governo federal tem caráter pretensamente técnico: as facções criminosas brasileiras são organizações de alta letalidade, mas não se enquadram como terrorismo pois carecem de posicionamento ideológico, são organizações focadas no exercício de atividades ilícitas visando uma maior obtenção de lucro.
A insistência norte-americana, portanto, revela que a discussão não é apenas jurídica. Ela é geopolítica.
Desde o retorno de Donald Trump ao centro da política internacional, Washington vem ampliando o uso dessa classificação sobre grupos latino-americanos. Venezuelanos do Tren de Aragua, membros da MS-13 e cartéis mexicanos passaram a ser enquadrados sob a lógica do terrorismo internacional.
O argumento oficial é combater cadeias globais de crime e imigração irregular. Mas, na prática, esse enquadramento também amplia o poder dos Estados Unidos para impor sanções, bloquear ativos, restringir circulação financeira e exercer pressão diplomática sobre governos considerados estratégicos.
É nesse ponto que o debate brasileiro exige cautela. O problema está em perceber que, quando Washington redefine juridicamente esses grupos ao classificá-los como terroristas, também redefine sua margem de atuação sobre o território político dos outros.
A história recente mostra que a categoria terrorismo raramente é neutra. No Oriente Médio, ela legitimou intervenções diretas e indiretas por décadas. Na América Latina, serviu frequentemente como base para ampliação de vigilância regional, cooperação militar e condicionamento diplomático.
Mesmo quando não há intervenção armada imediata, há um efeito concreto: o país enquadrado passa a operar sob novo grau de pressão internacional.
No caso brasileiro, isso ganha peso adicional porque o país ocupa hoje posição sensível em temas como Amazônia, minerais estratégicos, rotas atlânticas e reorganização geopolítica do Sul Global.
Outro exercício interessante é pensar na atuação dos rebeldes no conflito que envolveu o governo de Assad e o Estado Islâmico (ISIS) na Síria. Os rebeldes recebiam apoio e treinamento militar dos EUA, então representavam “a liberdade”, enquanto Assad e o ISIS eram lidos sob a lente “terrorista”.
A forma de atuação dos grupos era muito semelhante, mas alguns eram chamados de terroristas e outros de libertadores. O que percebemos é que esse desígnio não é concebido pela natureza do ato, e sim pelos agentes. Se é um inimigo, então podemos chamar de terrorista.
Numa leitura mais ingênua da conjuntura, supor que Washington está apenas preocupado com a violência urbana nas cidades brasileiras. A leitura mais realista é admitir que a segurança funciona também como linguagem de influência internacional.
Isso não significa afirmar que exista um plano imediato de intervenção sobre o Brasil. Seria precipitado dizer isso. Mas significa reconhecer que certas palavras são escolhidas precisamente porque deixam opções abertas para o futuro.
No fundo, a questão talvez seja menos as facções brasileiras e mais sobre quem ganha poder quando o crime muda de nome.
Porque, na política internacional, chamar algo de terrorismo raramente é apenas descrever. Muitas vezes, é preparar terreno para a construção de uma nova casa. Ou seja, o terrorismo é utilizado de pretexto para intervenção política e militar em outro país.
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