Com o flow mais incapturável do hiphop, ela te conquista no primeiro contato. Não importa quando você ouviu pela primeira vez: em 2019, na faixa “MAGENTA CA$H”, ao lado de Gloria Groove, ou na engenhosa “Dollar Euro” com Tássia Reis. Em “Maserati”, com Urias, e até mesmo como indicação de ícones como Emicida, Karol Conká e Ebony. Quem busca por hip-hop depara-se com ela: Monna Brutal.
Monna se tornou “Brutal” na Jova Rural, zona norte de São Paulo. Começou a ter contato com a cultura do rap através de oficinas comunitárias e a participar de batalhas de rima aos 13 anos. Para ela, o hip-hop viria a se tornar uma promessa de espaço político, justamente por viver o trabalho efetivo dele na favela - um lugar onde aquela menina trans poderia se expressar. Mas, logo, ela descobriria que esse espaço político, militante e, acima de tudo, de expressão, se limita à cisheteronormatividade. “Foi procurando pessoas LGBTs que faziam rap, via as manas cis fazendo seus movimentos acontecerem, mas não me sentia compreendida.”
E então uma dúvida: onde está o hip-hop quando quem pede espaço são corpos trans? Monna conta em entrevista para o Rap Falando, ainda em 2022, que “Nem sempre as batalhas de rima para pessoas LGBT ou mulheres cis são lugares revigorantes e acolhedores.” A batalha acontecia cronometrada, por meio dos flows e rimas, mas não acabava ali. “Pra mim o hip-hop era o lugar de me expressar. Só que ali eu não me senti bem-vinda.”
Vista Grossa
Aos 17, a artista começa a compor, e as músicas tornam-se um remédio para as feridas. Ela conta para a revista Noize que “Eu ainda faço para mim mesma, não apenas para o público.” Ela já tinha batalhado e ganhado diversas batalhas de MCs em São Paulo, chegando a batalhar na Batalha do Santa Cruz, uma das mais antigas da cidade.
“Eu já pisei em muito palco na força do ódio, porque na minha casa faltava comida, porque no meu corpo faltava uma base, um suporte familiar ou até mesmo social.”
Com muita coragem de tomar espaço no hip-hop, Monna lançou seu primeiro álbum 9/11 (2018). Após ele, vieram 2.0.2.1 (2021), o EP La Janta (2021), seguido de Limonada (2023), Vista Grossa (2024) e Tormento (2025).
Em Vista Grossa, Monna traz uma série de questionamentos à indústria cultural do hip-hop que, como ela mesma diz, podem causar duas coisas: vista grossa para aqueles a quem a crítica faz sentido, ou a impossibilidade de fazer vista grossa depois de ouvir.
Faixas como “Hype de Plástico”, “Licença Poética” e o sublime interlúdio “Noites de Sábado”, onde Monna conta uma história de parceria com um ser que depois descobriríamos ser sua relação com o hip-hop, constroem essa narrativa.
O álbum -e sua discografia de maneira geral- critica a indústria do hip-hop, com sua glamurização vazia e o individualismo da cena que abandona artistas de comunidade. Muitas vezes, Monna traz a distinção entre fazer rap e ser hip-hop.
Trecho dela:
“Fazer flow todo mundo faz. Agora fazer o trabalho educativo…”
Independência radical
Monna Brutal vai morrer artista independente. Essas são palavras dela, e isso reflete em inúmeros aspectos pessoais e profissionais na vida de qualquer artista.
A autonomia desses profissionais, que contam apenas com seus próprios recursos -no caso da música, sem vínculo com gravadoras ou selos -não vem por falta de oportunidade. Monna diz, baseada em sua concepção ética do hip-hop, que cada caso é um caso. Falando sobre si, a artista afirma que, apesar de não contar com superproduções em seu trabalho, “faço as coisas com o que tenho, mas me sinto grata.”
“Mais vale eu me levantar aos poucos o dobro de tempo que as pessoas precisam pra se levantar, e fazendo real papel efetivo da minha parte pro hip-hop, que só encher meus bagulho e pagar de bonita.”
Monna defendeu ainda, em entrevista ao Rap Falando, que o hip-hop precisa voltar para a quebrada.
“Eu acho que é tipo assim: Fortalecer os nossos. Esse trabalho vem como um pagamento para a periferia. Porque a gente tem peito de reunir 30 MCs que têm várias streamings, todas maravilhosas, montar um palco na periferia, arrecadar dinheiro pra distribuir na quebrada e gerar cesta básica?.”
Nesse sentido, a artista defende que é necessário construir um trabalho de base, que não se consolida no áudio nem em espaços institucionais ou glamourosos, mas na articulação coletiva dentro da própria cena. Para ela, é na união de forças que o hip-hop encontra sua potência.
“Por isso que eu falo da diferença do rap para o hip-hop. Fazer um flow todo mundo faz, e fazer o real trampo educativo?”

