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O pacto silencioso: violência de gênero e o 8 de março

Nas últimas semanas, o debate público brasileiro voltou a ser atravessado por episódios brutais de violência contra meninas e mulheres. O caso de estupro de vulnerável que mobilizou indignação nacional, somado à violência sofrida por uma jovem no Rio de Janeiro após rejeitar um dos rapazes que a abordaram, recoloca diante de nós uma pergunta incômoda: por que essas histórias continuam se repetindo? 

Esses casos chocam e devem mesmo chocar. Eles expõem a brutalidade em sua forma mais crua. Mas também revelam algo mais profundo: a dificuldade que temos de enfrentar as raízes dessa violência.  

A proximidade com o 8 de março intensifica o debate, como se a data funcionasse como um farol anual que ilumina aquilo que, no restante do tempo, tende a ser naturalizado. 

É importante lembrar: o Dia Internacional da Mulher não nasceu como celebração, ele emerge das lutas por direitos políticos, por condições dignas de trabalho, por reconhecimento. Não é uma data de flores, é uma data de conflito, um marco que simboliza disputas históricas por igualdade. 

Talvez por isso o 8 de março seja também um momento oportuno para deslocar a discussão. Em vez de tratar cada episódio de violência como um desvio isolado é preciso perguntar se não estamos diante de algo mais estrutural.  

Se a violência de gênero nos causa tanta perplexidade, o que torna sua superação tão lenta e complexa? 

A sociedade moderna se orgulha de ter sido fundada sobre a ideia de um Contrato Social: indivíduos livres, iguais perante a lei, que estabelecem acordos para organizar a vida comum. Constituições, códigos, direitos. Pactos visíveis que sustentam a democracia. 

Mas toda sociedade também se organiza a partir de acordos invisíveis. Cláusulas não escritas que definem expectativas de comportamento, lugares sociais e relações de poder; e, durante séculos, a autoridade masculina dentro da sociedade foi tratada como algo natural. 

Existe, ainda hoje, um pacto silencioso que estrutura muitas relações: a expectativa de que a autonomia feminina tenha limites; de que a recusa seja contestável; de que o “não” possa ser negociado ou punido. Não é por acaso que tantos episódios de violência emergem no momento da ruptura, exatamente quando uma mulher decide terminar, denunciar, rejeitar, sair. 

Nesses momentos, não se rompe apenas uma relação pessoal e sim com uma hierarquia histórica. 

E é exatamente por isso que a violência de gênero não pode ser compreendida apenas como patologia individual, já que ela está imbricada em formas profundas de organização social. A igualdade formal, inscrita nas leis, convive com desigualdades simbólicas que atravessam o cotidiano, assim, enquanto essas assimetrias permanecerem naturalizadas, a promessa democrática continuará incompleta. 

Hoje, a democracia não é apenas um regime político e não pode ser resumida a voto, liberdade de expressão ou alternância de poder. Entendo também que a democracia engloba a capacidade de desmontar hierarquias consideradas naturais, resultando na transformação das relações mais íntimas sob a premissa da igualdade universal. 

O 8 de março nos lembra exatamente disso: não se trata de celebrar conquistas como se o caminho estivesse concluído, mas de reconhecer que ainda existem cláusulas invisíveis operando na vida social. Cláusulas que autorizam, silenciosamente, a violência quando a autonomia feminina desafia expectativas antigas. 

Se queremos levar a sério a ideia de igualdade, precisamos ir além da indignação momentânea e enfrentar os pactos que sustentam as desigualdades. Sem isso, continuaremos tratando como exceção aquilo que é estrutural, e chamando de democracia aquilo que ainda é, em muitos aspectos, hierarquia.